“Segunda-feira. Você chega ao trabalho e é recepcionado por uma pilha de jornais e correspondências sobre a mesa.Com medo de jogar fora algo importante, você empurra tudo para um canto (já abarrotado), depois você vê isso. Liga o computador. Montes de e-mails o aguardam.Você olha alguns e, sem poder decidir se quer respondêlos ou deletá-los, deixa-os lá, na caixa postal.Nisso, lá se foi a manhã. Um amigo chama para almoçar.“Onde vamos?”.Depois de rodar por vários restaurantes – o japonês, o italiano e até a churrascaria –, decidem ir a um self-service, que tem mil opções. Empanturrado depois de comer um pouco de tudo, você se lembra da vontade de iniciar uma rotina de atividade física. E então se entrega, sonolento, a pensar no que fazer para se exercitar. Caminhar faz bem, mas é chato… Nadar? Meio caro. Quem sabe ioga, para ficar mais concentrado… Ou pedalar? Antes que você consiga decidir, é hora de pagar a conta e voltar. Ao abrir a carteira você lembra que precisa aplicar o dinheiro que sobrou do mês passado. Liga para o moço do banco: “Renda fixa é mais seguro, mas rende menos. Ações rendem mais, mas tem que saber a hora de investir, o risco é maior e depende de quanto tempo você pretende deixar o dinheiro aplicado. Dólar, euro? Tiro daqui e aplico ali? Depende de quanto paga de CPMF e da taxa de administração do banco. CDB, fundos, IOF”. Depois você decide. No final do dia, vai ao shopping comprar um presente para sua mãe. Olha muitas vitrines, compra uma blusa, mas fica na maior dúvida se fez a opção certa. Ao chegar em casa, se joga no sofá, liga a TV a cabo e fica zanzando pelos canais, sem conseguir se fixar em um. “Preciso de férias”, você pensa.Mas dá preguiça só de pensar em ter que escolher o destino, entre tantos lugares que habitam seus sonhos. Melhor ir dormir. No dia seguinte você acorda, chega ao trabalho e uma pilha de jornais te espera…

Você já sentiu essa sensação de que a quantidade de informação disponível é muito maior que sua capacidade de processá-la? Sim? Parabéns, você é normal. O mundo está mesmo muito complexo, e o estresse de lidar com a variedade de opções é hoje o grande mal da humanidade. Pesquisas afirmam que a quantidade absurda de decisões que temos que tomar diariamente é o principal causador de ansiedade. E o pior: com tanta informação nos assaltando, não conseguimos identificar os assuntos realmente importantes e dedicar mais tempo a eles.

Como chegamos aqui? O primeiro passo é entender como o mundo se complicou. E essa parte nem é tão complicada. É tudo mérito e culpa da globalização, diz o pensador francês Gilles Lipovetsky, que chama o mundo de hoje de sociedade de excessos. Excesso de informações, de produtos, de serviços. Em seu livro Os Tempos Hipermodernos, Lipovetsky diz que o excesso aumenta à medida que pessoas de diferentes grupos, países, sociedades, se relacionam para trocar mercadorias, serviços e informações. E isso não é ruim. Graças a essa integração é possível hoje estudar,pela internet, os preceitos da medicina tradicional chinesa, divertir-se, pela TV, com os dribles do Ronaldinho Gaúcho sobre os zagueiros espanhóis, comprar artigos que não existem no Brasil em uma loja estrangeira e investir na bolsa de Nova York, tudo isso sem sair de casa.

Enquanto derrubava fronteiras, a globalização também tornou mais frágeis as regras das sociedades, as imposições religiosas e as tradições, enfim, aquela rede de crenças e hábitos que agrupavam as pessoas e davam a elas um modo de agir parecido.Ou seja,por onde a globalização passa, as pessoas ganham mais liberdade de agir como querem. Em outras palavras, ganham liberdade de escolha. Esse individualismo tem uma mola propulsora forte: a sociedade de consumo. Para gostos cada vez mais pessoais, são necessários produtos cada vez mais específicos. E assim nascem os iogurtes-com-polpade- fruta-sem-casca-com-vitaminas-efibras.“ Hoje existe mais espaço para as pessoas manifestarem o gosto individual, e o mercado atende e potencializa esses desejos”, diz o estudioso de consumo Luiz Alberto Marinho, diretor da Brandworks, que desenvolve projetos de marketing para varejo e shopping centers. A cultura consumista e a publicidade criam e reinventam novas necessidades a cada minuto.

A conseqüência nós vemos todos os dias. Os lançamentos se espremem nas gôndolas dos supermercados, outdoors anunciam aparelhos eletrônicos mais modernos, cursos universitários cada vez mais específicos brotam nas universidades, canais de TV com novos programas surgem nas telinhas e sites, blogs e páginas na internet são criados a cada instante. O problema é que nosso cérebro continua do mesmo tamanho, e com a mesma capacidade de processamento.

Diminua as expectativas. O psicólogo americano Barry Schwartz, autor do livro The Paradox of Choices – When More is Less (em português,“ o paradoxo das escolhas, quando mais é menos”, inédito no Brasil) identificou dois padrões de comportamento humano sobre escolhas. Quem está no primeiro grupo não se contenta apenas com o bom, quer sempre o melhor, portanto precisa conhecer todas as opções disponíveis antes de decidir. O outro, ao contrário, fica com a primeira boa opção que aparece e não se atormenta com as outras possibilidades existentes. Adivinha quem vive melhor. Fácil, né? O segundo. E o sofrimento do primeiro só faz aumentar à medida que as opções se multiplicam. A tendência é que ele fique paralisado, sem saber o que fazer. É batata: pessoas muito perfeccionistas e exigentes acabam sendo as que sofrem mais nas escolhas,gastam um tempão porque acreditam que sempre existe possibilidade de encontrar alguma coisa melhor se continuar procurando,fazem mais comparações e se importam muito com as opiniões dos outros. O resultado: se arrependem com mais freqüência (veja o teste no fim desta matéria).

O diretor comercial Daniel Garbuglio, por exemplo, é um sujeito que se satisfaz rápido com suas escolhas: “Sou prático. Quando vou a um restaurante, enquanto meus amigos ficam 20 minutos estudando o cardápio eu passo o olho e logo que vejo um prato bacana já escolho,nem penso nas outras possibilidades. Estou mais preocupado em conversar com as pessoas e compartilhar momentos agradáveis do que ficar encucando com a comida ou outras coisas para escolher”, diz. Tirar mais satisfação das próprias escolhas é a palavra-chave para descomplicar.

Foque no que importa. Para isso, é preciso identificar as opções relevantes para você.Segundo o psicanalista junguiano José Ernesto Bologna, isso é fácil. “As grandes questões da vida”, diz ele,“trazem três características fundamentais: compromisso, duração e profundidade emocional”. Ou seja, antes de embatucar diante de uma escolha, pergunte-se se ela cumpre esses requisitos. O resultado, você vai ver, é que as decisões mais fundamentais da vida envolvem laços sociais. Afinal, os relacionamentos são a maior fonte de felicidade, como indicam várias pesquisas. Pessoas que têm um companheiro, boas amizades e relações estreitas com a família são mais felizes.

Muita gente já faz, intuitivamente, essa triagem.Eu não conheço ninguém que sofre para escolher um xampu, mesmo com tantas opções. Afinal, você pode experimentar à vontade e trocar se não gostar.Mas uma decisão de maior duração, como a escolha da profissão, merece mais dedicação. A orientadora profissional Bronia Liebesny, de São Paulo, notou que as pessoas que se dão melhor na escolha da profissão são aquelas que enxergam a importância dessa opção. Os jovens, em geral, encaram a profissão apenas como um meio de adquirir bens, e se frustram quando amadurecem e se perguntam o sentido do que fazem. “Eles percebem que essa escolha é relevante. Para grandes decisões é fundamental se informar, pesquisar, conversar com pessoas da área, maturar melhor a idéia antes da decisão.”

Restrinja as opções Nem sempre ter mais opções é bom. Às vezes, menos é mais. Em um estudo das universidades americanas de Columbia e Stanford, os pesquisadores instalaram dois estandes com amostras de geléias: um com 24 opções de sabor e outro com 6. O estande com mais opções atraiu mais pessoas, mas vendeu um décimo do que o outro, menos variado. Como disse antes, as pessoas percebem como perdas as opções que deixaram para trás. Portanto, quanto mais opções, maior a perda. Não é por acaso que algumas empresas estão restringindo a variedade de produtos que oferecem.

Esse é o ponto.“Ter tudo em excesso significa não ter nada”,concluiu Wim Wenders, diretor de cinema alemão no documentário Janela da Alma, em que pessoas com graus diferentes de deficiência visual revelam como enxergam (ou não) esse mundo saturado de imagens. “Com o excesso somos incapazes de prestar atenção e nos emocionar”,diz Wenders, que não enxerga direito e não consegue usar lentes de contato porque, veja só, sente falta do enquadramento dos óculos para “restringir a visão”. Segundo ele, com a visão mais seletiva, tem-se mais consciência do que vê.

Use essa metáfora dos óculos sempre que precisar fazer escolhas – quando for comprar algo, selecione não mais que três lojas. No supermercado, vá direto aos produtos que interessam.Ao escolher uma atividade física, comece descartando aquelas com que você não tem afinidade, e assim por diante.

Conheça a si mesmo Fazer comparações é inevitável. Segundo Barry Schwartz, muitas das comparações são feitas em busca de status social.Comparamos nosso salários, nossos carros, nossas casas e bens materiais. E sofremos com isso.Uma pesquisa feita por psicólogos nos Estados Unidos indicou que pessoas que ficam ruminando sobre seus desempenhos comparados aos demais são mais infelizes. Mas por que fazem isso? Porque querem a melhor opção (lembra dos dois padrões de comportamento?).

A solução é mais simples do que parece: antes de se comparar, pergunte a si mesmo se sua opção o satisfaz. Talvez ajude pensar que uma das características da sociedade de excessos é a efemeridade – tudo tende a ser mais passageiro, explica o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro Sociedade Líquida.” – Por Marcia Bindo

Teste seu grau de satisfação:

Escreva um número de 1 (discorda completamente) a 7 (concorda plenamente) para cada questão abaixo.
1. Sempre que está diante de uma escolha, tenta imaginar como são todas as outras possibilidades, mesmo aquelas que não estão presentes no momento da escolha.
2. Mesmo se você está satisfeito com o seu trabalho, continua procurando por melhores oportunidades.
3. Quando você está escutando música no carro, costuma sempre checar o que as outras estações estão tocando, mesmo que você esteja relativamente satisfeito com o que está ouvindo.
4. Quando está assistindo TV, costuma passear pelos outros canais sem se deter muito tempo em algum programa.
5. Encara relacionamentos como roupas: procura experimentar várias opções antes de escolher a que “veste bem”.
6. Sempre tem dificuldades de escolher um presente para um amigo.
7. Na hora de alugar um dvd demora um tempão à procura do melhor filme.
8. Quando vai fazer compras tem dificuldades de encontrar roupas de que goste bastante.
9. É fã de listas com o ranking dos “melhores filmes”, “melhores cantores”, “melhores atletas” etc.
10. Acha muito difícil escrever, mesmo quando é uma carta para um amigo, porque é duro ter que escolher as palavras apropriadas – e sempre faz rascunhos.
11. Não interessa o que faça, você sempre é muito exigente.
12. Nunca decide pela segunda opção.
13. Sempre fantasia viver de maneiras diferentes da sua vida atual.
Sua pontuação pode variar de 13 a 91.
Se for 65 para cima, você provavelmente é uma pessoa perfeccionista em suas escolhas.
Se a pontuação é 40 para baixo, você está mais próximo de ser uma pessoa que se satisfaz mais facilmente com suas escolhas.
Se você marcou entre 40 a 65 pontos, você tem as duas características mais equilibradas.
(Pesquisa da American Psychological Association, publicada no livro Paradox of Choice)

Fonte: Revista Vida Simples

 

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