“Não se trata de suprimir o desejo, mas de transformá- lo: de desejar um pouco menos aquilo que nos falta e um pouco mais aquilo que temos; de desejar um pouco menos o que não depende de nós e um pouco mais aquilo que de fato depende”, sugere o filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville.

Assim que um objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção”, continua Luc Ferry. “Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes”. Nada se modifica e enquanto se espera viver, a vida passa.

Dizem que um rei triste contratou um bobo da corte muito feliz para alegrá-lo. Porém, mais do que rir, ele queria saber o que tornava o bobo tão feliz. Ele consultou os sábios da corte, que concluíram: o bobo era assim porque estava fora do círculo dos 99. Para exemplificar sua teoria, sugeriram que o rei deixasse na porta do bobo um saco com 99 moedas de ouro e o observasse escondido. Além disso, o monarca deveria deixar o seguinte bilhete: “Estas 100 moedas de ouro são suas. O tesouro é um prêmio por você ser um homem bom e feliz. Desfrute-o e não conte a ninguém onde o encontrou”. O rei aceitou o desafio.

O bobo achou o presente e, sem acreditar no que via, começou a contar as moedas: 97, 98… 99! Faltava uma! Inconformado, contou de novo. “Que droga! Como assim?!?”, perguntava a si mesmo. O rei via que, em vez de ficar contente por ter recebido as moedas, ele estava com uma expressão angustiada e tensa. Depois de recontar o dinheiro, o bobo começou a fazer planos de como conseguiria a última moeda, tarefa que iria consumir alguns anos e que o manteria insatisfeito e infeliz até realizá-la. Abismado, o rei presenciava como o menestrel acabava de entrar para o círculo dos 99, e assim iniciava sua vida de homem infeliz.

Toda vez que sentimos inveja, também entramos no círculo dos 99. Olhamos para o que achamos que nos falta, em vez de olhar para nossa completude. De novo o budismo pode nos ajudar a compreender essa questão. Segundo essa filosofia, já somos naturalmente seres iluminados, felizes e cheios de amor e compaixão. Porém, essa realidade está encoberta pela sensação de falta e pelos desejos que surgem por querer suprimi-la. “Nossa consciência é pura e boa. O único problema é que ficamos tão envolvidos com os altos e baixos da vida que não encontramos tempo para fazer uma pausa e observar o que já temos”, diz o monge Mingyur Rinpoche em sua carta de despedida, antes de partir para um retiro de três anos nas montanhas do Nepal. “Não se esqueça de abrir espaço em sua vida para reconhecer sua natureza básica, para ver a pureza do seu ser e deixar que suas qualidades inatas de amor, compaixão e sabedoria possam surgir naturalmente”, escreveu. É como se essa natureza primordial fosse uma pequena planta que, nutrida por práticas como a meditação ou a contemplação, se tornasse forte e florescesse, trazendo mais felicidade e satisfação para nossa vida.”

Texto extraído da matéria “A falta que nos move” da Revista Vida Simples.

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